Mas Ali aguentou firme. A cada soco que levava, encurralado nas cordas, provocava o rival. E Foreman cansou. A tática deu certo. No oitavo assalto, o anti-herói americano aumentou a aura de mito que já carregava. Desferiu o golpe final com a maestria dos grandes. "Quando éramos reis", documentário lançado em 1996 sobre a luta, mostra uma cena clássica: a imagem dos jornalistas americanos Norman Mailer e George Plimpton de boca aberta com o feito do dono da coroa de seu tempo.Também no Zaire, o único repórter brasileiro presente à luta vivia o seu momento de glória. Newton Campos, 86 anos, não consegue esquecer a cobertura mais marcante de sua carreira. No Brasil, outro jornalista, que já tinha entrevistado o pugilista em 1970, em Nova York, se emocionava com a façanha. Sérgio Leitão, hoje com 65 anos, é tão fã do lutador que batizou de Cassius um de seus filhos.
Os ídolos americanos batem palmas para Ali. Os brasileiros também. O pugilista Éder Jofre, bicampeão mundial no peso-galo e no peso-pena, glória nacional, de quem Ali foi admirador, e o lutador supercampeão Anderson Silva, do MMA, febre do momento que ocupa um espaço já do boxe tempos atrás, se rendem também à técnica e à liderança do maior de todos os tempos.
- Acho que o Ali é o rei do boxe e a referência pública negra no esporte. Depois dele vieram Michael Jordan, Magic Johnson e tantos outros. Ele abriu as portas para todos nós. E tinha uma garra e um estilo inconfundíveis, que me inspiram. A luta do século, contra Foreman, é uma aula de superação. Além disso, era ambicioso e um visionário - afirmou por e-mail Anderson Silva, dono do cinturão do pesos-médios e considerado hoje o maior lutador do MMA.
O campeão mundial do MMA não acredita que, se fosse jovem hoje, Ali lutaria MMA.
- Acho que não. Ele é o rei do boxe - disse Spider, que perguntado sobre a homenagem faria ao lutador no dia do seu aniversário, deu um direto. - Um cinturão do MMA.
De cinturão, Éder Jofre também entende. Campeão do peso-galo em 1960 e do peso-pena em 1973, é fã confesso de Muhammad Ali.
- Embora fôssemos de categorias muito diferentes, o admirava muito. Foi um grande campeão. Talvez o melhor de todos. Acho que o único que pode ser comparado a ele é o Joe Louis. Boxeava bem, era técnico e pegava forte como um cavalo. Com a técnica que tinha, derrubava muita gente. Acho que derrubou todo mundo. Alguns até levantaram e conseguiram ir até o fim, mas foram poucos.
Contemporâneo de Muhammad Ali, Éder Jofre guarda com carinho um elogio e tanto do americano que se intitulava lutador da África.
- Tem uma coisa que me caiu muito bem. Soube, vendo uma entrevista dele, que era meu fã. Fiquei muito feliz, muito alegre, porque aqui no Brasil o boxe não é tão divulgado como nos Estados Unidos, na Europa, no Japão. Aqui, é meio paradão, infelizmente. Não tem apoio de ninguém.
- Fui primeiro a Joanesburgo, na África do Sul. Depois peguei outro voo, para a África do Norte, e desembarquei no Zaire em cima da hora. Cheguei lá morto, eram três da madrugada. Ainda fui para o hotel e consegui um fotógrafo. Partimos correndo para o local da luta, que começava às quatro. Foi impressionante. O Ali acabou com a luta no oitavo assalto, e logo subi no ringue com o fotógrafo, que estourou o flash nele. Fui no Foreman. Queria ver a sua expressão de derrota. Nessas horas eles não dizem nada.
Logo depois, Newton Campos arrumou carona com um casal para o aeroporto. O voo de volta para Joanesburgo era às 5h30m. No retorno para São Paulo, terminou toda a matéria na máquina de escrever dentro do avião. Foram setecentas linhas, divididas em trinta e cinco laudas, o que dá quatro páginas do jornal.
Ali foi o cara que mudou o boxe. Fez virar obra de arte"
Sérgio Leitão
- O Joe Louis era mais fantástico, mas o Ali era mais técnico. Ele fazia muito bem a mecânica do jab de esquerda. Fora a movimentação que tinha, como uma dancinha. Enlouquecia os adversários. Além disso, sabia como promover as lutas, mexia com as massas. E olha que não estudou muito. Mas lia...
- Disse logo que iria lá. Ficaram na dúvida se eu conseguiria. Garanti sair com a matéria. Ao chegar no local, me apresentei como repórter brasileiro. Falei alto. Ele estava no fundo e ouviu: "Brasil? Samba? Come in..." Eu tremia mais que vara verde. Mas ele foi muito simpático. Era um cara que você, chegando nele com jeito, te tratava muito bem. A bandeira que hasteou foi seguida por muita gente também das artes, como Sidney Poitier, Harry Belafonte...No esporte, abriu portas.
Depois do primeiro contato, Sérgio Leitão reencontrou Muhammad Ali mais duas vezes. Na segunda, levou a "homenagem" que fez: o filho de nome Cassius, com quatro anos, batizado com o nome original do pugilista.
- Ele ficou muito contente e passou um bom tempo com o meu filho no colo. Quando os repórteres vinham entrevistá-lo, punha o Cassius no chão. Depois, pegava-o de novo e o botava no colo. Foi muito carinhoso.
- O Mike Tyson e o George Foreman tinham socos mais fortes, mas Ali era mais técnico e estrategista. Na "Luta do Século", ganhou com inteligência. Quando foi lutar com o Foreman, já tinha derrubado o Joe Frazier. Baixou o peso de 102 para 96 quilos e afrouxou as cordas. Deitou nelas e deixou o Foreman bater nele até cansar. Aí, o derrubou no oitavo round. Além de tudo, dominou a plateia. Ele foi o cara que mudou o boxe. Fez virar obra de arte. Quase analfabeto, era autodidata. O inglês dele era cheio de erros e gírias, mas todos o entendiam. O ídolo dele era o Sam Cooke, excelente cantor. Treinava ao som dele... E era muito fanfarrão, sempre gostei disso.
Seja pelas 56 vitórias - 37 por nocaute -, pelas cinco derrotas - uma para Larry Holmes, por ironia do destino seu sparring nos treinos para a Luta do Século, quando estava em final de carreira -, tudo o que o envolve é sempre cercado de momentos marcantes. Campeão dos pesos-pesados pela primeira vez em 1964, quando deixou Sonny Liston estatelado, teve o título tirado e a licença cassada por três anos e meio por se recusar a lutar no Vietnã. Depois, quando voltou, em 1971, viu Joe Frazier derrotá-lo e se tornar o número 1. Mas Ali jamais se deu por vencido: em 1974, reescreveu sua história batendo o próprio rival para poder desafiar George Foreman na Luta do Século e recuperar a hegemonia. Depois, deixou-a escapar para Leon Spinks, em 1978. Mas obteve a revanche no mesmo ano. Tricampeão da técnica e superação, protagonista de duelos inesquecíveis, como o Thrilla in Manilla, nas Filipinas, contra Joe Frazier, em 1975, Ali fez o mundo bater com suas mãos e dançar a seus pés sem jamais ser nocauteado. O mito ainda vive.
Nenhum comentário:
Postar um comentário